A vista cansada foi a justificação
lógica para o meu corpo esconder
a fraqueza. Não foi uma lágrima
foi exaustão.
O meu olhar não é triste, está claro
não é um vazio que se estende entre
nós. É um espaço recreativo para
o exercício da solidão.
E certamente não é por falta de convicção
nas palavras que escrevo que me sinto
a morrer aos poucos. É falta de ar
É exaustão.
As palavras encarreiravam-se com a perfeição de quem escreve o próprio tempo. O Homem sorriu e dormiu em paz, sabendo que chegara onde sempre ansiou chegar: eternamente.
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
#14 - Chuva
a terra chorou a tua falta
abrasiva e ofegante
desfez-se em lágrimas sem consolo
os céus pararam apreensivos
os pássaros pousaram
quando o chão tremeu a tua distância
sou filho desta terra
eu partilho a sua dor
o ar quente pesado e abafado
ardeu em chamas
e queimou todas as tuas presensas
e a noite vestiu-se de luto
negra e silenciosa
e chorou também a tua falta
sou mãe desta terra
choro-me em dilúvios
abrasiva e ofegante
desfez-se em lágrimas sem consolo
os céus pararam apreensivos
os pássaros pousaram
quando o chão tremeu a tua distância
sou filho desta terra
eu partilho a sua dor
o ar quente pesado e abafado
ardeu em chamas
e queimou todas as tuas presensas
e a noite vestiu-se de luto
negra e silenciosa
e chorou também a tua falta
sou mãe desta terra
choro-me em dilúvios
terça-feira, 30 de abril de 2013
#13 - Claridade
A claridade do dia era apenas um entrave
no meio de muitos, como um olhar para trás
nesse olhar que me negavas eu apenas
desejava manter a nossa conexão, nem que fingida
Era um simples querer, um retalho da minha fragilidade
um querer que me pegasses, que me guiasses
a um qualquer lugar desconhecido
onde eu sentado ouviria a tua razão
o porquê da perda da nossa inocência
uma desculpa para termos aguentado as
dores do mundo em cima dos ombros
Em vez disso um desviar de olhar, seco
uma canção mal cantada para dizer adeus
e eu a ver as nuvens pintarem o céu de cinzento.
no meio de muitos, como um olhar para trás
nesse olhar que me negavas eu apenas
desejava manter a nossa conexão, nem que fingida
Era um simples querer, um retalho da minha fragilidade
um querer que me pegasses, que me guiasses
a um qualquer lugar desconhecido
onde eu sentado ouviria a tua razão
o porquê da perda da nossa inocência
uma desculpa para termos aguentado as
dores do mundo em cima dos ombros
Em vez disso um desviar de olhar, seco
uma canção mal cantada para dizer adeus
e eu a ver as nuvens pintarem o céu de cinzento.
sábado, 27 de abril de 2013
#12 - A Invenção da Solidão
Não é pela fúria dos seus traços
nem pela entrega no seu olhar
que as mágoas do Homem são
destiladas
É aqui, de coração aberto e despojado
de remorso e de virtude
que a expiação dos pecados é feita,
numa mesa de trabalhos
suja, gasta, vivida
entre amontoados de projetos por acabar
Golpe por golpe
lágrima por lágrima,
a obra ganha formas
O Homem
agora feito por defeito deus feito de carne
e osso e sangue (que seja derramado)
senhor e mestre do seu destino,
joga uma nova carta sobre a mesa
É um momento de criação
pura, tão simples e pura
ao ponto de fazer as mãos tremer
Fecham-se as janelas e trancam-se as portas
apagam-se as luzes
fecham-se os olhos e calam-se as vozes
para que todos possam parar e contemplar
a invenção da solidão
nem pela entrega no seu olhar
que as mágoas do Homem são
destiladas
É aqui, de coração aberto e despojado
de remorso e de virtude
que a expiação dos pecados é feita,
numa mesa de trabalhos
suja, gasta, vivida
entre amontoados de projetos por acabar
Golpe por golpe
lágrima por lágrima,
a obra ganha formas
O Homem
agora feito por defeito deus feito de carne
e osso e sangue (que seja derramado)
senhor e mestre do seu destino,
joga uma nova carta sobre a mesa
É um momento de criação
pura, tão simples e pura
ao ponto de fazer as mãos tremer
Fecham-se as janelas e trancam-se as portas
apagam-se as luzes
fecham-se os olhos e calam-se as vozes
para que todos possam parar e contemplar
a invenção da solidão
segunda-feira, 15 de abril de 2013
#11 - O Sol da Tarde
Ao calor da tarde nada se faz
A pele arde. O tempo esquece-se
de ser tempo
A pouca vontade dos músculos
seca-se como a erva que se
cria e enraíza sem querer,
são os pensamentos da Terra.
Lágrimas são suor
Ossos são engrenagens enferrujadas,
a ferrugem das nossas ações
que nos trouxeram até aqui
à penitência do sol da tarde.
Ao longe
Um moinho de vento chia no seu
último pranto, anónimo
Um grilo canta no seu ritmo incansável
Um corvo rasga o céu e
ecoa o seu luto pelas nossas almas
São estes pequenos sons da Terra
que nos lembram que a vida,
essa ainda persiste.
A pele arde. O tempo esquece-se
de ser tempo
A pouca vontade dos músculos
seca-se como a erva que se
cria e enraíza sem querer,
são os pensamentos da Terra.
Lágrimas são suor
Ossos são engrenagens enferrujadas,
a ferrugem das nossas ações
que nos trouxeram até aqui
à penitência do sol da tarde.
Ao longe
Um moinho de vento chia no seu
último pranto, anónimo
Um grilo canta no seu ritmo incansável
Um corvo rasga o céu e
ecoa o seu luto pelas nossas almas
São estes pequenos sons da Terra
que nos lembram que a vida,
essa ainda persiste.
sábado, 6 de abril de 2013
Telas Sujas de Pó - "Winter"
Uma música de inverno para um dia cinzento de primavera.
Tori Amos - "Winter" live at Montreax
de "Little Earthquakes"
Tori Amos - "Winter" live at Montreax
de "Little Earthquakes"
#10 - Fumo
Aos sonhos desfeitos
e à destruição da terra
aos filhos sem mãe
e aos vindos da guerra
aos pequenos defeitos
dos grandes guerreiros
feridos, rasgados e traídos
em terras de ninguém
brinda-se aos calados e perdidos
à primeira estrela da manhã
e aos anjos caídos
sem vontade e corações de pedra
a nós,
os de alma negra.
quinta-feira, 4 de abril de 2013
#9 - de terra
esqueço-me pelas ruas despidas
da cidade. que sou feito de terra
húmida. que sinto e que sangro
quando me dou. esqueço as cores
as tuas e as minhas, nossas
recreios de lembranças em tons
de cinzento. ecos ocos perdidos
entre os fios dourados do teu cabelo
entrego-me à rouquidão da noite
ao desvario e ás banalidades
e perco os sentidos
escuro
entrego-me à escuridão do quarto
o sabor amargo que me sobe
pela garganta é a renegação
do próprio corpo à realidade
sangro pela segunda vez
pelo vidro grosso da garrafa
vazia. vejo um reflexo distante
ou uma memória talvez não tão
distante. a visão turva distrai-me
o pensamento que não é claro
ecos ocos ecos ocos ecos ocos
a fantasia é parte integrante
dos cacos de um coração partido
sou a beladona que anseia por
liberdade. rio, danço e caio
redonda e morta no chão
escuro
despidos todos os fatos e postas
as máscaras de lado. sou apenas
o corpo que preenche o teu vazio
e não sou nada além da tua falta
sangro não pela última vez
da cidade. que sou feito de terra
húmida. que sinto e que sangro
quando me dou. esqueço as cores
as tuas e as minhas, nossas
recreios de lembranças em tons
de cinzento. ecos ocos perdidos
entre os fios dourados do teu cabelo
entrego-me à rouquidão da noite
ao desvario e ás banalidades
e perco os sentidos
escuro
entrego-me à escuridão do quarto
o sabor amargo que me sobe
pela garganta é a renegação
do próprio corpo à realidade
sangro pela segunda vez
pelo vidro grosso da garrafa
vazia. vejo um reflexo distante
ou uma memória talvez não tão
distante. a visão turva distrai-me
o pensamento que não é claro
ecos ocos ecos ocos ecos ocos
a fantasia é parte integrante
dos cacos de um coração partido
sou a beladona que anseia por
liberdade. rio, danço e caio
redonda e morta no chão
escuro
despidos todos os fatos e postas
as máscaras de lado. sou apenas
o corpo que preenche o teu vazio
e não sou nada além da tua falta
sangro não pela última vez
sábado, 23 de março de 2013
#8 - A Casa
isto - a casa, os móveis, as coisas
que acumulam pó - são agora
apenas o que resta de mim
tu és a réstia de luz, aquela que
passa por baixo da janela
que teima em não fechar
como a idade que nos põe tortos
com a vida - a janela
numa bandeja de sarcasmos
entulham-se memórias e cobertores
fotografias e nódoas de café
a velha casa e as suas paredes
fendas que eu vi aparecerem e estenderem-se
como as raízes do próprio tempo
esta casa é a testemunha do tempo
que passou, das palavras que se disseram
das promessas em vão
eles dizem - eles sempre disseram
tanto - que nada se passa em
vão. mas olhando estes móveis,
a água que corre fria, a tv
que há anos que não funciona
o sofá com um pé partido
talvez a velhice seja em vão.
sentado nesta poltrona de cálice
na mão - eu agora vejo
tudo retorna à casa, porque lá fora
há barulho e a vida corre
mas é aqui que os anjos vêm para morrer
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
#7 - novos (a)mares
hoje imaginei-me a velejar por mares que nunca vi
a forças das águas que me atravessam
navegam-me para um estado neutro
nem meio vivo nem meio morto
este corpo é conduzido a bom porto
e transpira tranquilidade
eu sou apenas eu
imagino-me sentado naquela cadeira do alpendre
naquela velha casa à beira mar
a calmaria das ondas embala-me o pesar
de outros tempos e de outra vida
uma tristeza que já não é minha
nem recente nem antiga
eu sou de novo
imagino o vento a passar-me pelos cabelos
leve brisa de leves memórias
desconscializo-me de tudo o que fui
não há dor nem rancor aqui
não há falta nem fartura
o equilíbrio é auto-suficiente
há vida aqui
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
#6 - mostra-me esta janela que escrevi...
mostra-me esta janela que escrevi
de carências e evidências
como se eu não percebesse o que é sentir
como se atrancasse num mundo novo
onde tudo me faz lembrar a falta de ti
veste-te de ausênsia
neste canto fora do alcance do teu encanto
como se a magia já não existisse
como se de repente já tivéssemos crescido
e fossemos estranhos outra vez
porque respiro, vivo de faz de conta
luz em forma de cruz
tenho marionetas e bonecas de pano
tenho conversas e mesa para dois
um bom vinho e solidão
agora dirige-te de joelhos a mim
em oração
culpa-me pelo frio das noites de inverno
como se eu fosse o redator do destino
como se fosse eu o inventor do amor
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
#5 - Meia Volta
O problema de nos fecharmos na nossa esfera é que, de tantas voltas dar ao círculo, perdemos a noção de quando já andámos. O tempo que já passamos a passar pelo mesmo sítio. Por isso hoje não vou escrever sobre ti. Hoje vou escrever sobre algo que é nada, sobre a subvalorizada satisfação de não ter relevância. Como aqueles pássaros lá fora. Aqueles que não são tordos nem pintassilgos, são apenas pássaros. E apenas piam, e não me fazem lembrar de nada. No entanto estão lá fora e existem e fazem parte da minha realidade. Não têm qualquer importância, e neste momento são a coisa que eu mais valorizo porque em nada me tocam. São a definição de ser livre e de libertar, e são sobretudo o fato de não me fazerem lembrar de ti. De quem eu não vou escrever.
Ser livre. Não dependente. Ser livre é estar desamparado, sem restrições. É dar um passo para fora da esfera, deixar o amor para trás e não sentir a sua falta, conscientemente. Como aqueles pássaros lá fora. Livres de pensamento, de sofrimento e de acções. Livres da própria realização de serem pássaros, e livres da memória de ti. Aquela de quem eu hoje não vou escrever.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
#4 - Intervalo
que se calem todas as vozes
cessem todas as gargalhadas
quero ouvir este coração bater
medir o seu sofrimento
em silêncio
que se apaguem todas as luzes
ninguém mais faça um movimento
quero saber o seu desabafo
de ser de ninguém
para sempre
todas as cores, todos os risos
todas as dores de todos os mundos
calem-se, hoje eu choro.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
#3 - A fragilidade
A fragilidade dá sempre um toque de beleza a uma pessoa. Uma certa aura. Um ar frágil e um olhar triste e as atenções estão chamadas. Corações ao descoberto, são como mausoléus: por fora a grandiosidade, por dentro o negrume. Mãos são dadas, sorrisos são mostrados com ingenuidade. As bocas, as línguas, os braços, os corpos fundem-se numa nova forma. O que é que poderia correr mal? Eu não me sinto.
É assim que eu sou: não me sinto. Eu na fragilidade vejo uma estátua de vidro. Com toda a sua maravilha e luz e com um pequeno empurrão cai ao chão, e os cacos ferem a pele. Eu na fragilidade vejo sangue. É assim que eu sou.
Eu sinto o cair dos anjos. Eu sou a justiça dos homens. Eu sou a fé na razão e o temor a Deus. Eu defino-me por reticências e concluo-me sem ponto final. Eu sou tudo, e de tudo aquilo que sou ainda nada foi visto. De tudo aquilo que sou tudo foi prometido.
De tudo aquilo que faço parecer ou digo ser: eu não sou. Sou uma mentira ambulante e sofro pelos pecados ainda por cometer. Sou uma solução sem qualquer sentido prático. E a minha existência não é mais do que as palavras que a minha voz não profere.
Eu sou a fragilidade.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
#2 - Suturas
uma mente adormecida
embala-se com canções e lamentos de vozes roucas
ecos são apenas ecos.
qualquer sentido é questionável
na razão que imperava
a moral implícita já não comanda as ações aqui
mortifiquei o pensamento.
o corpo escolhe seu próprio rumo
dominado pelo abstrato
ressentimento que se entranha na carne fraca
o amor já não doi.
a vontade já não mora aqui
#1 - Lição de Voo
Sempre nos deixaram acreditar que o céu era o limite. Éramos jovens e cada vez que um avião ou helicóptero passava eu seguia-os com o olhar até desaparecerem no horizonte, pensava: mais alto que aquilo nunca nenhum homem conseguirá ir. Ser criança é querer pilotar aviões, só porque o céu é o mais alto que se pode chegar. Ser criança é a irresponsabilidade de sonhar em grande.
Agora que somos adultos e estou num avião ainda vejo tanto que me falta alcançar. Mesmo já não sendo criança e sabendo que não vale a pena sonhar, ainda vejo tanto que me falta alcançar. E penso em ti, na calma que agora ocupa o teu lugar. Deixaste tudo tão calmo, tão estranho e eu deixo-me afundar nesta serenidade. Mas não é em paz que me encontro, nunca a paz! É apenas a vida a regressar aos seus hábitos, a remeter-me ao esquecimento.
Abro a porta do avião. Já não nos interessamos por limites, é a terra que nos chama. Mergulho em queda livre. O vento bate-me violentamente na face e por todo o meu corpo, sem ponta de compaixão. Numa única lágrima deixo sair tudo o que me magoa. O chão a cada momento a ganhar mais presença. Lembro-me de todas aquelas lições de voo a que faltei e rio-me para comigo nesta certeza: as dores da queda são inevitáveis.
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