As palavras encarreiravam-se com a perfeição de quem escreve o próprio tempo. O Homem sorriu e dormiu em paz, sabendo que chegara onde sempre ansiou chegar: eternamente.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
#7 - novos (a)mares
hoje imaginei-me a velejar por mares que nunca vi
a forças das águas que me atravessam
navegam-me para um estado neutro
nem meio vivo nem meio morto
este corpo é conduzido a bom porto
e transpira tranquilidade
eu sou apenas eu
imagino-me sentado naquela cadeira do alpendre
naquela velha casa à beira mar
a calmaria das ondas embala-me o pesar
de outros tempos e de outra vida
uma tristeza que já não é minha
nem recente nem antiga
eu sou de novo
imagino o vento a passar-me pelos cabelos
leve brisa de leves memórias
desconscializo-me de tudo o que fui
não há dor nem rancor aqui
não há falta nem fartura
o equilíbrio é auto-suficiente
há vida aqui
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
#6 - mostra-me esta janela que escrevi...
mostra-me esta janela que escrevi
de carências e evidências
como se eu não percebesse o que é sentir
como se atrancasse num mundo novo
onde tudo me faz lembrar a falta de ti
veste-te de ausênsia
neste canto fora do alcance do teu encanto
como se a magia já não existisse
como se de repente já tivéssemos crescido
e fossemos estranhos outra vez
porque respiro, vivo de faz de conta
luz em forma de cruz
tenho marionetas e bonecas de pano
tenho conversas e mesa para dois
um bom vinho e solidão
agora dirige-te de joelhos a mim
em oração
culpa-me pelo frio das noites de inverno
como se eu fosse o redator do destino
como se fosse eu o inventor do amor
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
#5 - Meia Volta
O problema de nos fecharmos na nossa esfera é que, de tantas voltas dar ao círculo, perdemos a noção de quando já andámos. O tempo que já passamos a passar pelo mesmo sítio. Por isso hoje não vou escrever sobre ti. Hoje vou escrever sobre algo que é nada, sobre a subvalorizada satisfação de não ter relevância. Como aqueles pássaros lá fora. Aqueles que não são tordos nem pintassilgos, são apenas pássaros. E apenas piam, e não me fazem lembrar de nada. No entanto estão lá fora e existem e fazem parte da minha realidade. Não têm qualquer importância, e neste momento são a coisa que eu mais valorizo porque em nada me tocam. São a definição de ser livre e de libertar, e são sobretudo o fato de não me fazerem lembrar de ti. De quem eu não vou escrever.
Ser livre. Não dependente. Ser livre é estar desamparado, sem restrições. É dar um passo para fora da esfera, deixar o amor para trás e não sentir a sua falta, conscientemente. Como aqueles pássaros lá fora. Livres de pensamento, de sofrimento e de acções. Livres da própria realização de serem pássaros, e livres da memória de ti. Aquela de quem eu hoje não vou escrever.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
#4 - Intervalo
que se calem todas as vozes
cessem todas as gargalhadas
quero ouvir este coração bater
medir o seu sofrimento
em silêncio
que se apaguem todas as luzes
ninguém mais faça um movimento
quero saber o seu desabafo
de ser de ninguém
para sempre
todas as cores, todos os risos
todas as dores de todos os mundos
calem-se, hoje eu choro.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
#3 - A fragilidade
A fragilidade dá sempre um toque de beleza a uma pessoa. Uma certa aura. Um ar frágil e um olhar triste e as atenções estão chamadas. Corações ao descoberto, são como mausoléus: por fora a grandiosidade, por dentro o negrume. Mãos são dadas, sorrisos são mostrados com ingenuidade. As bocas, as línguas, os braços, os corpos fundem-se numa nova forma. O que é que poderia correr mal? Eu não me sinto.
É assim que eu sou: não me sinto. Eu na fragilidade vejo uma estátua de vidro. Com toda a sua maravilha e luz e com um pequeno empurrão cai ao chão, e os cacos ferem a pele. Eu na fragilidade vejo sangue. É assim que eu sou.
Eu sinto o cair dos anjos. Eu sou a justiça dos homens. Eu sou a fé na razão e o temor a Deus. Eu defino-me por reticências e concluo-me sem ponto final. Eu sou tudo, e de tudo aquilo que sou ainda nada foi visto. De tudo aquilo que sou tudo foi prometido.
De tudo aquilo que faço parecer ou digo ser: eu não sou. Sou uma mentira ambulante e sofro pelos pecados ainda por cometer. Sou uma solução sem qualquer sentido prático. E a minha existência não é mais do que as palavras que a minha voz não profere.
Eu sou a fragilidade.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
#2 - Suturas
uma mente adormecida
embala-se com canções e lamentos de vozes roucas
ecos são apenas ecos.
qualquer sentido é questionável
na razão que imperava
a moral implícita já não comanda as ações aqui
mortifiquei o pensamento.
o corpo escolhe seu próprio rumo
dominado pelo abstrato
ressentimento que se entranha na carne fraca
o amor já não doi.
a vontade já não mora aqui
#1 - Lição de Voo
Sempre nos deixaram acreditar que o céu era o limite. Éramos jovens e cada vez que um avião ou helicóptero passava eu seguia-os com o olhar até desaparecerem no horizonte, pensava: mais alto que aquilo nunca nenhum homem conseguirá ir. Ser criança é querer pilotar aviões, só porque o céu é o mais alto que se pode chegar. Ser criança é a irresponsabilidade de sonhar em grande.
Agora que somos adultos e estou num avião ainda vejo tanto que me falta alcançar. Mesmo já não sendo criança e sabendo que não vale a pena sonhar, ainda vejo tanto que me falta alcançar. E penso em ti, na calma que agora ocupa o teu lugar. Deixaste tudo tão calmo, tão estranho e eu deixo-me afundar nesta serenidade. Mas não é em paz que me encontro, nunca a paz! É apenas a vida a regressar aos seus hábitos, a remeter-me ao esquecimento.
Abro a porta do avião. Já não nos interessamos por limites, é a terra que nos chama. Mergulho em queda livre. O vento bate-me violentamente na face e por todo o meu corpo, sem ponta de compaixão. Numa única lágrima deixo sair tudo o que me magoa. O chão a cada momento a ganhar mais presença. Lembro-me de todas aquelas lições de voo a que faltei e rio-me para comigo nesta certeza: as dores da queda são inevitáveis.
Subscrever:
Mensagens (Atom)