Sempre nos deixaram acreditar que o céu era o limite. Éramos jovens e cada vez que um avião ou helicóptero passava eu seguia-os com o olhar até desaparecerem no horizonte, pensava: mais alto que aquilo nunca nenhum homem conseguirá ir. Ser criança é querer pilotar aviões, só porque o céu é o mais alto que se pode chegar. Ser criança é a irresponsabilidade de sonhar em grande.
Agora que somos adultos e estou num avião ainda vejo tanto que me falta alcançar. Mesmo já não sendo criança e sabendo que não vale a pena sonhar, ainda vejo tanto que me falta alcançar. E penso em ti, na calma que agora ocupa o teu lugar. Deixaste tudo tão calmo, tão estranho e eu deixo-me afundar nesta serenidade. Mas não é em paz que me encontro, nunca a paz! É apenas a vida a regressar aos seus hábitos, a remeter-me ao esquecimento.
Abro a porta do avião. Já não nos interessamos por limites, é a terra que nos chama. Mergulho em queda livre. O vento bate-me violentamente na face e por todo o meu corpo, sem ponta de compaixão. Numa única lágrima deixo sair tudo o que me magoa. O chão a cada momento a ganhar mais presença. Lembro-me de todas aquelas lições de voo a que faltei e rio-me para comigo nesta certeza: as dores da queda são inevitáveis.
Adorei! lindo, lindo.
ResponderEliminarEspecialmente esta parte: «E penso em ti, na calma que agora ocupa o teu lugar. Deixaste tudo tão calmo, tão estranho e eu deixo-me afundar nesta serenidade. Mas não é em paz que me encontro, nunca a paz! É apenas a vida a regressar aos seus hábitos, a remeter-me ao esquecimento.»
E aqui neste canto escuro não desejo a felicidade. Desejo o ser completo, alguém que tire a estranheza desta serenidade. Alguém que, com a mão sobre a minha, me diga: "a calma pode saber bem também. Senta-te aqui comigo, vamos saborear o esquecimento juntos."
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