As palavras encarreiravam-se com a perfeição de quem escreve o próprio tempo. O Homem sorriu e dormiu em paz, sabendo que chegara onde sempre ansiou chegar: eternamente.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
#5 - Meia Volta
O problema de nos fecharmos na nossa esfera é que, de tantas voltas dar ao círculo, perdemos a noção de quando já andámos. O tempo que já passamos a passar pelo mesmo sítio. Por isso hoje não vou escrever sobre ti. Hoje vou escrever sobre algo que é nada, sobre a subvalorizada satisfação de não ter relevância. Como aqueles pássaros lá fora. Aqueles que não são tordos nem pintassilgos, são apenas pássaros. E apenas piam, e não me fazem lembrar de nada. No entanto estão lá fora e existem e fazem parte da minha realidade. Não têm qualquer importância, e neste momento são a coisa que eu mais valorizo porque em nada me tocam. São a definição de ser livre e de libertar, e são sobretudo o fato de não me fazerem lembrar de ti. De quem eu não vou escrever.
Ser livre. Não dependente. Ser livre é estar desamparado, sem restrições. É dar um passo para fora da esfera, deixar o amor para trás e não sentir a sua falta, conscientemente. Como aqueles pássaros lá fora. Livres de pensamento, de sofrimento e de acções. Livres da própria realização de serem pássaros, e livres da memória de ti. Aquela de quem eu hoje não vou escrever.
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