sábado, 23 de março de 2013

#8 - A Casa


isto - a casa, os móveis, as coisas
que acumulam pó - são agora
apenas o que resta de mim

tu és a réstia de luz, aquela que
passa por baixo da janela
que teima em não fechar

como a idade que nos põe tortos
com a vida - a janela
numa bandeja de sarcasmos

entulham-se memórias e cobertores
fotografias e nódoas de café
a velha casa e as suas paredes
fendas que eu vi aparecerem e estenderem-se
como as raízes do próprio tempo

esta casa é a testemunha do tempo
que passou, das palavras que se disseram
das promessas em vão

eles dizem - eles sempre disseram
tanto - que nada se passa em
vão. mas olhando estes móveis,

a água que corre fria, a tv
que há anos que não funciona
o sofá com um pé partido

talvez a velhice seja em vão.
sentado nesta poltrona de cálice
na mão - eu agora vejo

tudo retorna à casa, porque lá fora
há barulho e a vida corre
mas é aqui que os anjos vêm para morrer

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